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Foi a partir de 1995 que minha memória ficou marcada por muita decepção
com alguns capoeiristas da minha região. E começou quando um mestre foi
convidado para ministrar um curso aqui em Santos e, logo de início,
disparou sua “metralhadora” falando mal de tudo e de todos que faziam
capoeira diferente da dele, afirmando, em tom de bronca, que a capoeira
não é brasileira. E nem se denomina capoeira. Disse ainda que
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“quem ensina que essa luta é brasileira e que se chama capoeira é um
mentiroso!”
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Todos os mais antigos que eu
presentes nessa aula permaneceram calados. Eu, que nesse período estava
no meu 9º ano de prática, percebi que na camisa dele estava escrito, com
letras garrafais, “Grupo de CAPOEIRA tal...” (grifo
meu). Então perguntei para ele, se a capoeira não era brasileira e nem
se chamava assim, por qual razão ele incluía esse termo para denominar
seu grupo e o que ele ensinava (afinal, é mentiroso quem usa esse nome
sem saber ou aquele que usa sabendo?). Daí ele nitidamente perdeu o
“rebolado”, começou a gritar comigo, mas não respondeu minha pergunta de
forma coerente com o que ele próprio estava afirmando de forma tão
categórica até então (aliás, na realidade, considerando isso como
critério, ele nunca me respondeu uma pergunta sequer. Nem naquele dia e
nem a posteriori, nos demais encontros que tive com ele). Mesmo assim,
em seguida, ele afirmou que
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- “quem
cobra para ensinar capoeira é um gigolô”
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Eu, já totalmente inconformado,
perguntei quem tinha recebido os cinqüenta reais que eu havia pago para
estar lá e, ainda, se ele considerava que o mestre dele – que vive disso
e não dá aula de graça – era gigolô também. Bom, por razões óbvias eu
acredito ser desnecessário descrever o clima que se estabeleceu no
recinto.
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Pois bem, mas para mim o pior não foi
isso. O pior foi eu perceber que todos os olhares me reprovavam por
“constranger” o palestrante. Como se tudo que ele estava afirmando fosse
verdade e que nós merecíamos pagar para estar ali, tomando aquele
esculacho todo por, segundo as acusações no mínimo indiretas da parte
dele, praticarmos uma capoeira tão “sem fundamento” e tão “sem
história”.
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Resumo da ópera: foi a partir daí que
eu testemunhei com muita resignação, vários capoeiristas que nasceram,
cresceram e se projetaram aqui na região, não só engrossarem as fileiras
de práticas e filosofias que nada (ou quase nada) tinham a ver com a
nossa realidade (e que vai desde o comportamento até a indumentária),
mas também afirmarem que a capoeira de Santos não tinha história, ou a
capoeira daqui é mais dançada(?). Alguns ainda arrumavam outros
adjetivos e pretextos, sempre com caráter pejorativo, em uma tentativa,
talvez, de se convencerem de que agora sim, fizeram a escolha certa. São
vários os exemplos.
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Lembro-me de outro curso
que participei, aqui mesmo em Santos, em que um desses a quem me refiro,
no começo do seu discurso, disse algo assim:
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“A capoeira que vocês praticam é muito inocente!”.
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Só por essa afirmação, eu
já fiquei indignado, pois ele tinha bebido dessa água a vida
toda. Mas o pior foi quando ele, para provar sua tese, convidou um
capoeirista daqui (que por sinal, em minha opinião, jogava muito) e
pediu:
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“Faça aqui, na minha frente, alguns movimentos de ataque dessa
capoeira de vocês para eu mostrar algumas coisas”.
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O rapaz, inocentemente,
achando que estava colaborando com o curso, partindo da ginga, começou a
aplicar alguns golpes como queixada, armada, martelo de
estalo, meia-lua de compasso e por aí vai.
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Para cada golpe que
recebia o palestrante que ficava só na espera, aplicava um
contra-ataque certeiro.
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Não sei até que ponto
aquilo impressionou ou convenceu a galera que estava participando desse
curso (que estava cheio também, diga-se de passagem, e mais da metade
eram meus alunos), mas eu, ainda mais indignado, levantei a minha mão, e
quando ele me deu a palavra, propus:
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“Vamos inverter agora? Você faz alguns ataques dessa tua
‘capoeira’, aqui na minha frente e eu, assim na espera igual
você ficou, te mostro algumas coisas”.
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Na hora ele,
completamente desconcertado, me pediu calma, disse que não queria causar
nenhuma polêmica.
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Então eu insisti:
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“Mas você acha justo expor esse cidadão a essa situação? Por essa
razão é que eu queria ver o contrário e comigo.”
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Daí então, ele
reconheceu que não escolheu a melhor forma de demonstrar alguma coisa,
pediu desculpas e tentou continuar o tal curso.
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Contudo, no meu entender, ele falou
tanta baboseira, que resolvi me retirar, o que, conseqüentemente,
esvaziou o recinto.
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Eu tenho na minha memória tantos
exemplos como esses citados acima, em tantos cursos que eu participei,
com tantos mestres, que seria possível escrever incontáveis textos
usando somente esse tema. Acontece que esse não é o foco direto desse
texto. Muito menos ostentar essas minhas participações em cursos e
eventos como se fossem troféus. Minha intenção, conforme já citei para
um grande amigo outro dia desses, é apresentar aqui e somente para fins
didáticos e pedagógicos na formação dos capoeiristas da minha escola,
uma síntese do contexto histórico - interno e externo - que me motivou
estabelecer e adotar os fundamentos que favorecessem a preservação da
capoeira na forma como eu aprendi sem, contudo, impedir o
desenvolvimento natural que é próprio em qualquer atividade humana.
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Uma vez apresentado esse “pano de
fundo”, no próximo texto pretendo, finalmente, escrever acerca da
formação do Grupo Capoeira Santista propriamente dito.
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Está dito.
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Mestre Ribas
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Santos, 14 de outubro de 2010.